Sobrecarga
Por que algumas mulheres sentem que precisam dar conta de tudo?
Existem responsabilidades concretas que ocupam tempo, energia e atenção. Mas, em algumas experiências, a sobrecarga também envolve uma sensação persistente de que é preciso continuar sustentando tudo — mesmo quando já existe cansaço.
Talvez o dia comece antes mesmo de você levantar.
Existem compromissos para lembrar.
Mensagens para responder.
Coisas do trabalho.
Questões da casa.
Pessoas que precisam de atenção.
Talvez existam filhos.
Estudos.
Uma relação.
Uma família.
Planos que você gostaria de realizar.
E, no meio disso, ainda existe você.
O problema é que nem sempre parece existir espaço suficiente para tudo.
Então alguma coisa vai sendo adiada.
Muitas vezes, aquilo que pode esperar é justamente o que diz respeito a você mesma.
Não necessariamente porque tenha decidido que suas necessidades são menos importantes.
Às vezes, simplesmente porque tudo ao redor parece mais urgente.
Mas existe uma diferença importante entre:
ter muitas responsabilidades
sentir que você precisa conseguir sustentar todas elas
A sobrecarga também é concreta
Seria um erro explicar toda sobrecarga apenas a partir da maneira como uma mulher pensa ou se relaciona.
Existem condições reais que precisam ser consideradas.
Duplas ou múltiplas jornadas.
Trabalho.
Cuidado com filhos.
Responsabilidades domésticas.
Cuidado com familiares.
Estudos.
Dificuldades financeiras.
Demandas emocionais presentes nas relações.
E muitas dessas responsabilidades ainda são distribuídas de maneira desigual.
Portanto, nem todo cansaço precisa esconder alguma explicação psicológica mais profunda.
Às vezes existe simplesmente coisa demais para uma pessoa sustentar.
Reconhecer isso é importante para não transformar um problema concreto em uma falha individual.
Nem toda sobrecarga pode ser resolvida mudando a maneira como você pensa.
Mas por que algumas responsabilidades parecem impossíveis de deixar para depois?
Mesmo quando reconhecemos as condições concretas da rotina, outra pergunta pode aparecer.
O que acontece quando alguma coisa precisa ficar sem fazer?
Para algumas pessoas, aceitar o próprio limite produz apenas uma decisão prática:
“Isso fica para amanhã.”
Para outras, a mesma situação pode trazer culpa, ansiedade, preocupação ou uma sensação intensa de irresponsabilidade.
É nesse ponto que a quantidade de tarefas encontra a maneira particular como cada pessoa aprendeu a se relacionar com responsabilidade.
Ser aquela que resolve também pode se tornar um lugar
Em algumas histórias, ser responsável passa a ocupar uma posição importante.
Aquela que lembra.
Aquela que organiza.
Aquela que cuida.
Aquela que percebe.
Aquela que evita problemas.
Aquela com quem todos podem contar.
Pode existir reconhecimento nesse lugar.
Pode existir afeto.
Pode existir orgulho.
Pode existir uma sensação de segurança.
Por isso, não se trata simplesmente de dizer que alguém deveria deixar de cuidar dos outros.
A questão é perceber quando esse lugar passa a ser sustentado mesmo quando existe um custo importante para si mesma.
Às vezes, ser necessária para todo mundo deixa pouco espaço para descobrir aquilo de que você própria necessita.
Quando pedir ajuda parece mais difícil do que continuar cansada
Dividir uma responsabilidade também pode exigir alguma coisa.
É preciso confiar que outra pessoa fará.
Aceitar que talvez faça de outro jeito.
Reconhecer que você não consegue sustentar tudo naquele momento.
Permitir que alguém perceba que você também precisa.
Para algumas pessoas, continuar fazendo pode parecer mais simples do que atravessar esse desconforto.
Isso não significa necessariamente que elas gostem de estar sobrecarregadas.
Pode significar apenas que ocupar o lugar de quem precisa de ajuda é menos familiar do que ocupar o lugar de quem ajuda.
E quando ninguém pediu que você fizesse tudo?
Também existem situações em que as pessoas ao redor não estão exigindo aquilo que a própria pessoa sente que precisa entregar.
Ninguém disse que a casa precisava estar daquele jeito.
Ninguém exigiu uma resposta imediata.
Ninguém pediu que aquela responsabilidade fosse assumida.
Mesmo assim, aparece a sensação de:
“Eu deveria.”
Esse “deveria” merece atenção.
Porque algumas exigências deixam de depender de alguém repetindo aquilo em voz alta.
Elas podem passar a fazer parte da maneira como nos avaliamos.
O problema não é cuidar
Cuidar das pessoas não é, por si só, um problema.
Assumir responsabilidades também não.
Ser competente, disponível e atenta pode fazer parte de características importantes de alguém.
A questão não é substituir:
“eu preciso cuidar de todo mundo”
“eu não devo cuidar de ninguém.”
Existem muitos caminhos entre esses dois extremos.
Talvez uma pergunta mais interessante seja:
“Consigo cuidar do outro sem precisar desaparecer de mim mesma nesse processo?”
Limite não é apenas saber até onde você consegue ir
Muitas pessoas reconhecem perfeitamente quando estão cansadas.
Sabem que assumiram coisas demais.
Percebem que precisariam reduzir o ritmo.
Isso não significa que consigam fazer essa mudança com facilidade.
Porque colocar um limite também pode significar frustrar uma expectativa.
Dizer não.
Delegar.
Pedir ajuda.
Aceitar que alguma coisa não ficará perfeita.
Ou simplesmente reconhecer:
“Eu não consigo fazer isso agora.”
Portanto, conhecer um limite e conseguir sustentá-lo diante de outras pessoas — e diante de si mesma — são experiências diferentes.
E onde entra a psicoterapia?
A psicoterapia não precisa ensinar uma mulher a administrar ainda melhor uma vida que já está exigindo demais dela.
Também não deveria transformar autocuidado em mais uma obrigação.
Na abordagem psicanalítica, pode existir espaço para compreender como cada pessoa passou a ocupar determinados lugares em suas relações.
O que significa ser responsável?
O que acontece quando você decepciona alguém?
Como é receber cuidado?
O que você sente quando precisa pedir ajuda?
O que acontece quando decide escolher alguma coisa para você?
Por que algumas responsabilidades parecem suas mesmo quando poderiam ser divididas?
Essas perguntas não possuem uma única resposta.
A história de cada pessoa muda aquilo que está em jogo.
Talvez dar conta não precise significar dar conta de tudo
Reconhecer limites não elimina responsabilidades.
Também não significa deixar de se importar com as pessoas.
Mas talvez permita olhar para uma ideia que pode parecer óbvia e, ainda assim, ser difícil de viver:
você também faz parte da vida que está tentando sustentar.
Quando todas as outras necessidades ganham prioridade continuamente, alguma coisa importante pode começar a desaparecer do campo de atenção.
Às vezes, não é preciso fazer mais.
Talvez seja necessário compreender por que fazer menos parece tão difícil.
Você também faz parte da vida que está tentando sustentar.
Este conteúdo possui caráter informativo e reflexivo. Ele não tem como objetivo realizar diagnóstico e não substitui avaliação ou acompanhamento psicológico individual.
Sobre a autora
Sou Jheniffer Lorraine Queiroz de Araujo, psicóloga, CRP 06/202276, e realizo atendimentos psicológicos exclusivamente online. Meu trabalho é orientado pela abordagem psicanalítica e direcionado a mulheres adultas.
Referências e leituras que dialogam com esta reflexão
- Freud, Sigmund. “O ego e o id.”
- Freud, Sigmund. “O mal-estar na civilização.”
- Winnicott, Donald W. “Da dependência à independência no desenvolvimento do indivíduo.”
- Winnicott, Donald W. “O ambiente e os processos de maturação.”
- Klein, Melanie. “Amor, culpa e reparação.”
Jheniffer Lorraine Queiroz de Araujo
Psicóloga · CRP 06/202276
Cada forma de sobrecarga também encontra uma história diferente.
Se você deseja conhecer como essas questões podem ser trabalhadas em um processo psicoterapêutico, conheça mais sobre meu trabalho.
Continuar lendo
Outros conteúdos
Autocobrança
Por que é tão difícil descansar sem sentir culpa?
Nem sempre ter tempo para descansar significa conseguir realmente parar. Para algumas pessoas, justamente quando as tarefas diminuem aparece uma sensação incômoda de que ainda existe alguma coisa que deveria estar sendo feita.
6 min de leituraLimites
Dificuldade de dizer não: por que colocar limites pode gerar tanta culpa?
Reconhecer que alguma coisa ultrapassa seu limite e conseguir comunicá-lo para outra pessoa não são necessariamente a mesma coisa. Às vezes, um simples “não” pode trazer culpa, medo de decepcionar ou a sensação de que você está sendo egoísta.
7 min de leitura
